A conspiração das vacas e o dia internacional do vegetarianismo

cowns

Hoje, dia 1 de outubro, é o dia mundial do vegetarianismo, e vem a minha mente a importante fase de transição para o veganismo que começou justamente quando me tornei vegetariano.
Já escrevi aqui no blog sobre minha transição para o veganismo, mas vou reforçar que uma das coisas mais importantes que fiz foi buscar conhecimento sobre os impactos que meu antigo estilo de vida causava no meio ambiente. E os resultados dessa busca me levaram ao veganismo e a adoção de um estilo de vida mais sustentável.
Porém, minhas pesquisas teriam sido mais simples se naquela ocasião o filme “Cowspiracy – a conspiração das vacas” já tivesse sido feito.
Cowspiracy é um documentário do cineasta Kip Andersen onde ele investiga os resultados da agropecuária no meio ambiente depois de descobrir que a criação de animais para o consumo humano é o principal responsável pela emissão de poluentes na natureza, além do alto consumo de água.
Com essa informação, ele decide ir atrás das organizações de defesa do meio ambiente e questionar porque a maioria delas ignora esses fatos, omitindo e até negando conversas sobre o assunto. Com boas entrevistas e um conteúdo muito relevante, Kip Andersen nos apresenta argumentos e números provando que o consumo de produtos de origem animal, em especial as carnes, não é questão de opinião.
Estudos sérios e detalhados, inclusive o estudo da ONU que motiva a investigação de Kip, provam com conhecimento científico que o nosso atual estilo de vida, principalmente nossa alimentação, esta literalmente matando o planeta e reservando para as futuras gerações um cenário que deixa de ser preocupante e passa a ser desesperador.
Cowspiracy – a conspiração das vacas é um filme essencial para todos nós, principalmente para quem quiser adotar argumentos valiosos em defesa da vida na terra.
Por esses e outros motivos, julgo que esta seja a melhor forma de celebrar esse dia, assistindo uma boa dose de verdade.
cowspiracy

Cowspiracy: The Sustainability Secret
(A Conspiração da Vaca: O Segredo da Sustentabilidade)

Diretor: Kip Andersen

Ano: 2014
Tempo: 1:30:40

Assista ao trailer do filme legendado em português.

E se Serena Williams fosse branca?

PARIS, FRANCE - JUNE 08: Serena Williams of United States of America poses with the Coupe Suzanne Lenglen after victory in the Women's Singles Final match against Maria Sharapova of Russia during day fourteen of French Open at Roland Garros on June 8, 2013 in Paris, France. (Photo by Clive Brunskill/Getty Images)

PARIS, FRANCE – JUNE 08: Serena Williams of United States of America poses with the Coupe Suzanne Lenglen after victory in the Women’s Singles Final match against Maria Sharapova of Russia during day fourteen of French Open at Roland Garros on June 8, 2013 in Paris, France. (Photo by Clive Brunskill/Getty Images)

Para saber se existe racismo em alguma situação, troque a cor da pele dos envolvidos e a resposta ficará evidente.
Não sou um grande entendedor de tênis, não jogo e vejo apenas alguns torneios, mas não é preciso ser especialista para ver o óbvio, que Serena Williams é uma das maiores tenistas de todos os tempos.
Desde que um o primeiro ser humano começou a jogar esse esporte chamado tênis, poucas vezes o fez com tanta perfeição e competência quanto ela. Poucos profissionais são tão precisos em seu trabalho quanto ela. Certamente ela é uma das maiores atletas, entre todas as categorias, gêneros e estilos, do nosso tempo. (o link para o ranking da WTA e outras estatísticas esta no fim do texto)

ranking - WTA 2015

Mesmo assim ela ainda ouve e lê comentários desrespeitosos, ofensivos, sobre seu corpo, seu cabelo, seu estilo. Ela, por incrível que pareça, para parte dos comentaristas esportivos e empresas de marketing, não é uma unanimidade. Como isso se explica? Como podemos entender isso?
Vamos fazer um exercício. Como comparação usaremos apenas os títulos de Grand Slam, que são os mais importantes.
Serena Williams conquistou 21 títulos de Grand Slam até o momento. Maria Sharapova, sua suposta maior rival e principal vítima nas quadras, conquistou 5.
21 x 5!
Agora, você consegue adivinhar qual das duas é a tenista mais bem paga?
Bom, não teremos muita dificuldade em acertar, é a Maria Sharapova.   (o link para a lista esta no final do texto)
Mas como? Qual a lógica para uma pessoa do nível da Serena, 21 títulos de Grand Slam, ter uma remuneração menor do que outra que conquistou 5?
A resposta é que Serena, aos olhos do mundo, principalmente num esporte elitista e com algumas das situações mais bizarras do mundo competitivo, tem apenas um ponto fraco, ela não é branca, loira e com o “corpo padrão moda”.
Imagine, apenas vislumbre em qual patamar Maria Sharapova seria alçada se possuísse metade das conquistas da Serena, pois não vou nem imaginar se igualasse em títulos. Ela seria, sem dúvidas, uma das maiores deusas do mundo moderno.
Ao meu entender, Serena William já é essa deusa do esporte. O racismo velado, o machismo violento, nada disso vai impedir que ela continue empilhando títulos e conquistas.
Quem sabe no futuro, quando nossa espécie estiver mais evoluída moralmente, Serena será alçada ao lugar que merece.
E ainda existem pessoas que insistem em falar de meritocracia.
Links:
Forbes – Tenistas mais bem pagos do mundo: http://www.forbes.com/pictures/mli45fdmld/4-maria-sharapova/
Site da WTA: http://www.wtatennis.com/rankings

Não sou PT, sou Dilma

Foto Oficial Presidenta Dilma Rousseff.  Foto: Roberto Stuckert Filho.

Foto Oficial Presidenta Dilma Rousseff. Foto: Roberto Stuckert Filho.

Os primeiros serão sempre castigados.
É o que acontece quando algo novo é proposto para um grupo conservador e hipócrita, como aqui em nossa pátria amada e idolatrada. Em certos momentos, acredito que esse verso do hino nacional é uma piada, uma tirada dos compositores, prevendo que um país que nasceu como nascemos, que alimentou tantos crimes e crueldades na sua fundação e escondeu com sua bandeira colorida um poço cheio de racismo, misoginia e ódio, realmente não poderia amar coisa alguma.
Sempre fui apartidário, e sigo assim. Não sou filiado a nenhum, nunca levantei bandeiras em eleições ou conferências. Não digo isso com orgulho, apenas digo.
Embora não exista um partido que more no meu coração, sei de qual lado eu não devo ficar. Sei exatamente qual discurso não devo comprar e reproduzir. Diferencio com quilômetros de distância a bandeira que não me representa.
A bandeira do ódio, do xingamento, da vulgaridade política, hoje representada por parte da direita paranóica delirante que grita pelas ruas com espuma na boca atacando e chutando o primeiro desavisado que cruzar seu caminho com uma camisa vermelha.
E nada me envergonha mais do que os ataques que direcionam à Presidenta Dilma.
A copa do mundo foi terrível em muitos pontos, da visível irregularidade na construção de alguns estádios até a vergonha esportiva em campo. Pouca coisa se salvou daquele evento, mas o que mais me chocou não foi isso.
Logo na abertura do evento, um coro proferiu xingamentos em rede mundial, para mais de um bilhão de pessoas ao redor do mundo, direcionados à Presidenta que estava presente na cerimônia. Milhares de vozes gritando “Dilma, vai tomar no cú!” (peço desculpas por escrever isso, mas já foi dito paro o mundo e precisava deixar claro o quanto foi ofensivo) acertaram meus ouvidos como uma pedra. A sensação de vergonha inundou meu corpo. Vergonha de fazer parte, ainda que indiretamente, daquilo tudo. De compartilhar o mesmo país e idioma com gente desse tipo.
Que tipo de povo ofende alguém assim, da forma mais gratuita e infantil possível? Que tipo de país aplaude isso como se fosse uma vingança histórica? E não vou nem problematizar o fato de ser uma senhora e Presidenta do país.
E o que começou com xingamentos no estádio virou mantra. Jovens, velhos, idosos e até crianças, claro que acompanhados dos seus irresponsáveis, gritam essa frase até perder o fôlego e caírem desacordados. Cartazes em manifestações duvidosas e até adesivos criminosos foram feitos com esse tema.
adesivo-dilma-gasolina-posto-bomba-de-combustivel-petrobras-448001-MLB20250193247_022015-O
Não sou e nunca serei conivente com isso, e se para me opor a tamanha brutalidade eu tiver que escolher uma bandeira, assim o farei e escolho ser Dilma
Eu não sou militante do PT, partido que vem ganhando cada vez mais o meu desprezo, assim como os outros. Não sou Lula, não sou FHC, sou Dilma. A primeira mulher “eleita” para presidir esse país. O seu governo é quase indefensável, com muitos erros e escolhas duvidosas. Mas nada justifica o ataque direcionado a uma única pessoa, principalmente da forma que esta sendo feito. Acredito que o prego que faltava no caixão da moralidade jornalística foi dado com um artigo da Época questionando a sexualidade da Presidenta. Depois disso, para chegar ao fundo do poço eles precisarão subir muito.
Fico me perguntando o que eles acham que estão fazendo.
Será que eles acreditam que a Dilma, mais cedo ou mais tarde, vai ter um ataque de insegurança e sair chorando pelos corredores do palácio do planalto e desistir de tudo? Que ela vai gritar “cansei” e fugir para um sítio?
Acredito que essa turma perde o sono a cada dia que passa e a Dilma continua no cargo. A cada dia que passa e uma mulher continua presidindo o país. A cada dia que passa e mais negros e pobres entram na faculdade.
Eles perdem o sono com isso. Chama o exército, as tropas de choque, o Batman, os Vingadores, todo mundo para dar uma força no golpe, porque do jeito que está não pode. Seus interesses falam mais alto do que a inteligência, do que a moralidade, do que a justiça.  
END8077
A Dilma foi eleita democraticamente pela maioria do eleitorado. Até agora não foi encontrado nenhuma ligação dela com qualquer esquema de corrupção. O próprio líder do PSDB, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, deixou isso claro em uma entrevista.
A Presidenta Dilma é primeira, por isso enfrenta as ondas mais fortes, mas é a primeira de muitas. E depois dela, virão outras mulheres e homens que desafiarão os preconceitos para fortalecer nossa jovem democracia. Virão negros, pobres e todos que representam a verdadeira pluralidade brasileira.
O machismo, o racimos, a xenofobia e todas as armas dessa galera (diga-se de passagem, não são armas só da direita) não vencerão essa luta. Se isso os faz perder o sono, então vão ficar sem dormir até 2018, porque o mandato da Presidenta vai até lá.
Eu e boa parte do povo brasileiro não somos PT, somos Dilma. Discordamos do seu governo, questionamos suas escolhas, mas o fazemos como adultos e não como crianças mimadas que rolam no chão do mercado quando querem um pacote de salgadinho.
Defender a permanência da Presidenta Dilma é defender a democracia e não um partido.

Brancos, eu disse não!

dear_a
Uma pergunta precisa ser respondida: Por que os brancos ficam tão revoltados quando ouvem “não”?
Caso 1
Pessoa Negra: Não me ensine sobre racismo!
Pessoa Branca: Por que não posso opinar? Essa separação só reforça o racismo! Você é racista, sabia?
Caso 2
Pessoa Negra: Esse grupo é um espaço para debater assuntos ligados à comunidade afro-brasileira, como racismo, e por motivos óbvios brancos não serão aceitos.
Pessoa branca: Por que não? Está me impedindo de participar de um grupo por ser branca(o)? Isso é segregação, sabia? Isso só reforça o racismo!
Caso 3
Pessoa Negra: Dependendo da forma que você usar certos elementos da cultura afro-brasileira pode sim ser considerando apropriação cultural.
Pessoa Branca: Como assim? Ridículo! Agora não posso mais ouvir samba nem hip hop? Você nem sabe do que esta falando, vai estudar um pouco antes de falar besteira.

cotas

Bom, eu poderia dar mais exemplos, mas esses são suficientes.
Vivemos numa sociedade onde só lemos e ouvimos o que queremos. É muito difícil você se colocar numa situação onde sua vontade não seja atendida de forma instantânea, principalmente se você tiver dinheiro e for branco.
Quem tem mais de 25 anos talvez vá se lembrar de um tempo onde era preciso ouvir uma sequência de músicas das quais não gostávamos para poder apreciar aquela tão aguardada faixa, muito comum nas rádios FM. Quem nunca comprou um CD por causa de uma música? Hoje é um pouco diferente.
Com a opinião, principalmente na internet, a coisa é parecida. E se o assunto for racismo, machismo e homofobia, escorrem muitos megabytes de sangue na tela.
É muito difícil para uma pessoa que viveu cercada por privilégio adquiridos com crimes históricos, onde seus semelhantes foram tratados como heróis, desbravadores, conquistadores, ouvir que sobre certos assuntos a sua opinião não é relevante.
Dói muito, para um homem branco, ouvir que sobre esse ou aquele tema ele não tem propriedade para opinar. Logo ele, pensador, exemplo de cultura e inteligência. Logo ele, parâmetro da pessoa de bem.
O Brasileiro se vê como um paladino da justiça e ética cercado de pessoas imundas e corruptas. O racista é o outro, não ele. O machista é o outro, não ele.
Quando o assunto é racismo, a coisa tende a piorar, onde muitas vezes a vítima é colocada como opressora por não deixar o opressor opinar sobre sua dor.
Segundo pesquisa de 2014, 92% creem que há racismo no Brasil, mas apenas 1,3% se considera racista.

http://www.inctinclusao.com.br/noticia/93/o-racismo-nosso-de-cada-dia

Essas pessoas ficam muito bravas quando encontram uma mulher negra ou um homem negro que olhe bem no fundo dos seus olhos e diga: Não! Aqui não!
Isso fere um orgulho construído ao longo dos últimos 500 anos, hidratado com o sangue de milhões de pessoas. Não é um orgulho qualquer, é um orgulho antigo.
Pessoa branca: Eu não concordo!
Bom, o fato de você concordar ou não é irrelevante, porque uma verdade será sempre uma verdade, independente de quantas pessoas acreditam nela. Isso precisa ficar claro.
Pessoa branca: Não é preciso ser negro para sofrer racismo! Eu sou branco e sei como é ser discriminado!
Bom, se você já foi parado pela polícia apenas por ser branco, se você já perdeu alguma vaga de emprego apenas por ser branco, se você recebe um salário menor apenas por ser branco, se já aconteceu alguma dessas coisas, então vou dizer que você sabe como é, apesar de mesmo assim não ter sofrido racismo.
Caso você não se encaixe em nenhuma das opções, sobre esse assunto você não tem nenhuma opinião importante.
Não vejo nenhum problema em ter negros e brancos lutando contra o racismo, desde que o branco não queira dar lição, explicar com o quê uma pessoa negra deve se ofender. A falta de empatia, o discurso desonesto e o caráter duvidoso de certos simpatizantes colocam essa aliança em descrença, uma vez que não é preciso muito esforço para ouvir discursos sobre a fantasia do racismo reverso.
Recentemente escrevi um texto intitulado “Ser preto esta na moda, desde que você não seja preto”, e a muitas pessoas (uma grande parte curiosamente branca) se apegou ao discurso do turbante, quando essa palavra só aparece uma vez no texto. Por que isso aconteceu? Aconteceu porque é desconfortável encarar a palavra racismo, prefiro falar sobre turbantes.
O texto não era sobre turbantes.
Falar de racismo é desconfortável, para o negro e para o branco consciente, não é uma coisa divertida. Divertido é jogar futebol, assistir filme, não falar de racismo. Então, se quiser realmente ajudar a desconstruir o racismo, você precisa saber ouvir, apenas ouvir.
Aqui, sobre esse tema, o branco não tem voz.
Pessoa branca: Não concordo, eu tenho…
Branco, eu disse não!

Está na moda ser preto, desde que você não seja preto

ta na moda ser negro
É bem comum encontrar nas redes sociais algumas pessoas defendendo a ideia de que o racismo não existe (em geral pessoas brancas, mas ainda é possível encontrar algumas pessoas pretas com a síndrome de Holiday) usando argumentos batidos como o da “democracia racial” e de que no Brasil o problema é social e não racial.
Vejo também um esforço muito grande em disfarçar todos esses problemas com uma atitude que não consigo deixar passar batida, algo que faz parte do movimento “ser negro ta na moda”. Neste movimento vemos pessoas brancas se vestido com temas africanos, usando turbante, fazendo parte de diversos movimentos negros e até renegando a cor da sua pele (é, sei que não faz sentido, mas vamos lá).
Quem me conhece sabe que sou totalmente a favor da integração entre povos e culturas. Sabe que vejo com bons olhos jovens pretos e brancos juntos, discutindo o destino do nosso país. O que me incomoda é ser preto apenas quando lhe convém.
Ser preto no samba, no hip hop, no candomblé, ser preto assim é fácil. Gostaria que essas mesmas pessoas fossem “pretas” quando a polícia abordou com violência meu irmão na rua, quando uma pessoa perde uma vaga de emprego por ser preta. Quando um canal de TV exibe um programa com teor racista.
Gostaria que fossem pretos na riqueza e na pobreza, na alegria e na tristeza.
Na verdade o que vejo são pessoas se apropriando da nossa cultura, esvaziando seu significado, usufruindo apenas dos benefícios e ignorando as desvantagens.
Por que, quando seu amigo foi humilhado na escola você não disse nada? Por que você não se mostrou indignado quando fizeram aquele comentário racista sobre os haitianos no trabalho? Por que você não rebateu seu familiar quando, num almoço de família, disse que “agora tudo é racismo” e que não podemos dar ouvidos a esse mi mi mi?
Não fez nada porque ser preto está na moda, desde que você não seja preto.
Estudei em uma escola pública, mas que por muitos motivos era composta por muitos alunos brancos, e sei que o silêncio do “amigo” dói tanto quanto a piada racista.
O Brasil precisa de pretos fortes e de brancos desconstruídos e conscientes dos seus privilégios, pois só assim vamos avançar para uma cultura integrada.
Quer desconstruir? Acha o sistema racista odioso? Venha para o nosso lado, mas venha inteiro, não pela metade.

historia-turbantes

Todo branco é contra o racismo, desde que o negro fique “comportado”

Hepburn_tracy_guess_whos_coming_to_dinner

Há muito tempo assisti um filme chamado “Adivinhe quem vem para o jantar” (Guess Who’s Coming to Dinner) de 1967, dirigido por Stanley Kramer.
O filme conta a história de uma garota branca, filha de um casal liberal e defensor fervoroso dos direitos civis, que conhece um médico negro no Hawaii e decidem se casar. Quando ela conta a noticia para os seus pais a reação deles é surpreendentemente negativa (pelo menos para ela.)
Sei que o filme possui muitos problemas, mas uma frase dita pelo pai dela me marcou muito. Em determinado momento do filme, ao ouvir que o mundo estava mudando, ele diz: É, mas parece que esta mudando apenas no meu jardim.
É engraçado como isso me marcou mais do que o resto do filme, mais do que o desfecho romântico e todo o primor técnico dessa obra, mas só foi fazer sentido muitos anos depois, quando de posse da minha identidade de homem negro, se encaixou perfeitamente na forma como a sociedade brasileira se comporta.
Aqui todo mundo torce pelo beijo gay na novela (pelo menos torcia), todos se dizem encantados com a beleza negra, todos ficam derretidos com a história de superação de um garoto favelado que supera os obstáculos da vida e “vence”. Todos gostam de tudo isso, desde que cada um fique no seu devido lugar.
A escadaria da Paróquia Nossa Senhora da Paz, local de chegada de muitos imigrantes em São Paulo

A escadaria da Paróquia Nossa Senhora da Paz, local de chegada de muitos imigrantes em São Paulo

O atentado do último sábado (08/08/2015) contra seis haitianos, que inclusive resultou na morte de um deles, foi uma amostra disso tudo. Animais assassinos alimentados por uma cultura racista atacaram seis pessoas alegando que estes estavam roubando seus empregos. Não lembro de nenhum ataque aos espanhóis e portugueses que chegaram aqui assim que a crise na zona do euro se agravou, e foram muitos. Sem contar que os haitianos, mesmo que muitos dominem mais de dois idiomas e possuam formação universitária, acabam ficando com  os subempregos que os brasileiros não querem. Em hipótese alguma essa atitude selvagem – contra negros ou brancos – seria aceitável, mas é incrível como no caso do negro a repercussão é muito menor. Fosse um europeu a coisa seria diferente.
Gostamos de estrangeiros, desde que sejam brancos e de algum país tido como desenvolvido. E o engraçado que esse comportamento vem de um povo que durante muito tempo foi, se ainda não é, hostilizado e menosprezado quando está no exterior.
Todo mundo é contra o racismo, desde que o negro fique calado e concorde com tudo. Todo mundo é pro inclusão social, desde que os aeroportos não fiquem cheios “dessa gente humilde”. Todos concordam que no Brasil vigora uma democracia racial (espera um pouco, perdi o fôlego de tanto rir), desde que o negro fique no lugar de negro e o branco no lugar de branco. Acontece que essa ideia não resiste à uma análise honesta, onde nossos preconceitos estão tão enraizados que não é difícil encontrar até mesmo um negro reproduzindo racismo por ai com frases ignóbeis do tipo: O racismo está nos olhos de quem vê.
O racismo, companheiros e companheiras, está na pele de quem sente. Está na lágrima de quem sente. Está nas estatísticas vergonhosas que nosso país ostenta sobre violência policial, curiosamente contra pessoas negras. O racismo está na novela, está na sua piada, na camiseta, na música, na sua “liberdade de expressão (não seria de opressão) na hora de fazer um programa humorístico criminoso como o Pânico na TV.  O racismo está em você, que se recusa a repensar seus privilégios e olhar com honestidade para o mundo ao seu redor.
Acontece que o povo negro esta acordando e não será mais composto por pessoas pretas “comportadas”, e isso irrita profundamente qualquer branco que vê seu racismo histórico escancarado e sem defesa bem na sua frente, diante dos seus filhos e amigos. É ser pego de surpresa com as calças nas mãos fazendo algo errado, por que nunca passou por suas cabeças despreocupadas que um dia levantaríamos e com o peito estufado gritaríamos: Não! Não aceitamos mais.
É bom que se acostumem, porque a fatura chegou e não queremos o pagamento mínimo.

black-people-unity-the-shop-blog

Quantas vidas você salva?

protecao-dos-animais
Quando entendemos o veganismo, fica claro que não se trata de uma dieta.
A essência do veganismo é salvar vidas, mas você tem ideia de quantas vidas sua escolha ajuda a salvar?
Um site, Vegetarian Calculator, se dispôs a ajudar as pessoas nesse cálculo, para que possam computar quantos animais tiveram suas vidas polpadas pelo simples fato de você não comer carne. O processo é bem simples, mas impressiona.
Segundo o Vegetarias Calculator, um “vegetariano'” que viver 80 anos (média de vida no Reino Unido) polpará a vida de aproximadamente 7.000 animais. Essas conta não leva em consideração animais menores, como camarão, mas revela um número considerável e que não pode ser ignorado.
Esse é o link do site, para quem quiser conferir: http://vegetariancalculator.com/. O site é em inglês, mas os comandos da calculadora são muito simples, sem contar que você pode apelar para a tradução do Google.
calculator_vegetarian
Em todo caso, isso revelou uma questão: quantos animais precisam ser salvos para que o veganismo valha a pena? Como computar vidas? Como quantificar isso?
Acho impossível, pois cada vida é um milagre, um desenrolar de eventos. Cada vida é o resultado de bilhões de anos de evolução. É impossível definir que sou mais vegano que o outro, pelo simples fato de ter salvado mais vidas. Não que este seja o objetivo do site citado.
Cada morte adiada ou cancelada pela sua escolha em adotar o veganismo como bússola da vida é uma vitória. Cada gota de sangue que não precisar mais ser derramada para alimentar sua “falsa necessidade” de morte é uma vitória.
Sei que nesse caminho muitas vezes ouvimos de amigos, parentes e até de desconhecidos, que deixar de comer carne não salvará os animais, afinal, o resto do mundo continua temperando seus pratos com sangue. Sem contar que, proporcionalmente, os veganos são minoria no mundo.
O que essas pessoas ignoram é que para aquele boi ou frango que sobreviveu, seu veganismo fez toda a diferença. Para aquele outro animal que terá a oportunidade de trilhar todo o percurso natural da sua vida, você fez toda a diferença.
Entram nessa conta milhões de outros seres sencientes que são torturados em laboratórios com o objetivo repugnante de testar produtos de beleza, limpeza, drogas e outros venenos.
E é isso, no final das contas, o que realmente importa.

08-blogutilecriativo.com_.br_