No espelho uma pessoa preta

no espelho uma pessoa preta

Observando minha vida, o mundo ao meu redor e até mesmo a história da nossa civilização, uma verdade inconveniente se revela bem diante dos meus olhos: temos a mania doentia de amar nossos opressores.

Roma, em seu auge, dominava do norte da Europa ao norte da África, passando pelo Oriente Médio. Milhares de culturas foram perseguidas, destruídas ou simplesmente assimiladas pelo romanos que classificavam como bárbaro qualquer um que não fosse romano. Não deixa de ser curioso o fato de que muitos dos povos que estiveram tanto tempo sob o julgo romano adotaram suas práticas e costumes após a queda do império. A arquitetura romana até hoje é um símbolo de nobreza e poder em países como a Inglaterra, terra cujos povos nativos tanto sofreram nas mãos do exército de César (Caesar).

Durante a invasão européia ao território que hoje é o Brasil, culturas inteiras, tanto as nativas como as dos povos escravizados trazidos para cá, foram destruídas. Não só a parte material, mas também todo a história, local de nascença, nome, religião, até que não restou mais nada além de um corpo vazio, livre para ser manipulado e preenchido com o que fosse mais conveniente ao invasor.

Na mente desse corpo foi colocada a ideia de que não existia nada antes do homem branco chegar, e se algo existia era ruim e por isso não deve ser preservado. Foi implantada a ideia de que o belo pode ter uma definição e ela é branca, tem cabelos lisos e claros. A ideia de que o negro simboliza o mal, o ruim, o doente, o diabo (seja lá o que for esse tal de diabo).

Muitas pessoas, quando aprisionadas e encarceradas num navio negreiro a caminho do Brasil não eram associadas ao seu local de nascimento, mas sim ao porto de onde o navio saiu, apagando assim todo a sua história. Eram jogadas num espaço minúsculo com centenas de outras pessoas de nações, costumes e idiomas totalmente diferentes. Ao chegar em terras brasileiras, recebia um outro nome, escolhido por quem o comprou, nomes que trazemos até hoje.

É normal um homem branco, que consegue montar sua árvore genealógica com mais de 300 anos de história, chamar-se Moreira, Garcia, Teles e por ai vai. Agora, uma pessoa negra, que evidentemente tem sua ancestralidade na África, não poderia ter nomes assim vindo da terra de seus antepassados. Foram nomes impostos. Nossa árvore genealógica existe, mas está enterrada. Não conseguimos remontar a linhagem de nossas famílias sem esbarrar na senzala e o que veio antes desse crime foi completamente apagado.

Após essa lavagem cerebral em massa, geração após geração, vemos pessoas negras fazendo uma espécie de “arqueologia genética”, cavando sua história na esperança de encontrar um parente italiano, português, alemão para pleitear a tão sonhada dupla cidadania com algum país europeu. Assim como os povos que outrora foram chamados de bárbaros pelos Romanos, caçados e oprimidos, hoje usam o latim como símbolo de sabedoria e erudição, nós usamos elementos da cultura europeia para nos legitimar. Lemos todos os pensadores europeus para parecer inteligentes, somos devotos de suas religiões e em nome delas perseguimos as de nossos antepassados. Ouvimos música “erudita” para parecer culto e aceitamos a classificação de “world music” ao que vem do “resto do mundo”, já que o que é erudito só poderia vir da Europa.

Porém, não importa quanta maquiagem eu use, quantos termos “eruditos” eu aprenda, no espelho ainda há um homem preto, cuja melanina não passa despercebida pelos policiais, recrutadores em empresas, guardas de shopping e tudo o mais.

Hoje, sou um homem preto que aos pouco está aprendendo a se ver melhor nesse espelho, identificar o que é natural e o que me foi imposto muitos tempo antes do meu nascimento. Amar-se não é uma tarefa tão fácil quando se passou a vida toda sendo ensinado que o belo e aceitável é o seu oposto, mas o simples fato de abrir os olhos nos proporciona possibilidades infinitas de libertação.

O homem que não ama as mulheres

homem-pilantra-feliz dia das mulheres

A luz do sol invadiu o seu quarto aproveitando uma pequena fresta na janela, mas o suficiente para despertá-lo de um sono tranquilo.

Abriu o guarda-roupa e escolheu despreocupadamente suas roupas, sem ponderar nada, apenas seu gosto e desejo. Tomou um café reforçado e foi trabalhar.

Atrasou propositalmente sua saída para coincidir com a saída da sua vizinha, um alvo certo dos seus olhares sedentos, para poder acompanha-la até o ponto com alguma piada constrangedora ou comentário jocoso sobre as pessoas na rua que por algum motivo estivessem fora dos padrões do aceitável, curiosamente a maioria das vítimas era mulher.

Sua vizinha, quando era castigada por sua companhia, descia um ponto antes do necessário, apenas para abreviar aquele suplício e esconder seu local de trabalho, embora na cabeça do nosso herói ele estive fazendo consideráveis avanços em direção ao coração da jovem.

Antes de a jovem descer, pensando no quanto deveria andar desnecessariamente, ela ouviu um “feliz dia das mulheres” acompanhado de um daqueles sorrisos cínicos de vendedor de bugigangas, marca registrada do nosso Clark Gable.

Nosso valoroso representante da família de bem continuou seu caminho por mais quatro pontos, para desespero das mulheres daquele ônibus, pois nenhuma perna, decote ou calça um pouco mais justa passava sem a devida fiscalização dos seus olhos famintos. Em seu mundo paralelo, por motivos desconhecidos pela ciência, ele acreditava receber respostas, quando não positivas, pelo menos neutras.

Chegou ao trabalho, encontrou alguns amigos na mesinha do café e atualizou a conversa sobre futebol, vídeo game e… bom, mulheres. Descreveu eufórico seu progresso com a vizinha, do quanto está perto de ser mais uma conquista, fazendo seu mês começar de forma positiva, para o orgulho geral dos colegas. Nesse instante, chega uma estagiária segurando uma pilha de papéis. A moça sente de imediato todos os olhares predatórios em sua direção e quase não conseguia continuar na mesma direção, tamanho o desconforto a que foi submetida.

Nem o visível incômodo da jovem redirecionou os olhos dos caras, que tentaram pronunciar alguma coisa, mas nada inteligível saia de suas bocas salivantes, até que o transe foi quebrado por uma pasta que a estagiária deixou cair.

Nosso herói, sempre prestativo e cavalheiro, correu como se uma vida dependesse da velocidade de suas pernas e pegou a pasta, ainda que a moça já estive na iminência de fazer o mesmo e de forma confortável, diga-se de passagem.

Seus olhos tarados, treinados por toda vida, encontraram um pequeno espaço em sua blusa, algo que jamais seria chamado de decote, mesmo com muita boa vontade, mas o suficiente para ativar um instinto primitivo que o impedia de desviar o olhar, causando um desconforto ainda maior na já desconfortável situação.

Sentou em sua mesa, abriu o navegador e sempre que podia curtia uma foto aqui, outra ali, fazia comentário sobre feminismo, racismo e qualquer outro assunto do qual soubesse pouco ou quase nada, mas sentia uma força grande, incontrolável de ter a palavra.

Enviou dezenas de mensagem felicitando suas amigas, a mãe, suas primas, namoradas de amigos, ex-namorada e até desconhecidas, mas que apareciam em sua linha do tempo como alguém que ele “talvez” conhecesse. Curtiu e compartilhou outros tantos banners e memes sobre a mulher ideal e o quanto aquele dia era especial para elas.

Seu colega da mesa ao lado lhe chamou e disse:

– Você ficou sabendo? A Fê foi estuprada quando voltava da faculdade.

– Também – respondeu prontamente nosso amigo – com as roupas que ela usa até mesmo um Padre ficaria tentado. Ela não devia andar tarde por ai, quem procura um dia acha. E não estou dizendo que foi certo, mas ela não fica por aí defendendo bandido? Vamos ver se a turma dos “direito zumano” vai aparecer pra ajudar.

E nesse ritmo ele seguiu por todo o dia.

Na faculdade encontrou outro grupo de amigos na lanchonete e o mesmo cenário da mesa do café na empresa se repediu, mas em escala maior.

Na porta da faculdade havia um vendedor de rosas que estava ali por pura coincidência, mas nosso incansável cavalheiro não perdeu tempo e comprou uma para sua namorada, que por uma casualidade também estuda na mesma instituição.

Perdeu os primeiros vinte minutos da aula de ética no ambiente de trabalho para poder fazer uma cena na porta da sala da sua amada para lhe presentear com uma rosa e um beijo. Apertou bem ela nos seus braços, declarou amor e lhe disse: “Feliz dia das mulheres, amor”.

Finalizado esse espetáculo, ele tomou o rumo da sua sala, mas não sem antes lançar seu olhar indiscreto para uma jovem que passava apressada no corredor. Ele pensou “como eu amo as mulheres”, mas estava enganado, pois apenas as desejava, tanto quanto um pedaço de carne numa tarde de churrasco em família.

Nada em seus gestos trazia a vaga ideia de amor ou respeito, apenas desejo incontrolável, desrespeitoso e mortífero. Homens como esse são responsáveis por milhares de mortes de mulheres todos os anos, mortes essas invisibilizadas por uma sociedade liderada por homens misóginos e doentios que cruzam nossos caminhos todos os dias. Alguns ferem a carne, mas outros as ferem na alma.

Se por algum motivo sentiu falta do nome do nosso ilustre paladino, sugiro que use qualquer um de algum homem que conheça, garanto que será fiel ao personagem.

What Happened, Miss Saldaña?

 

What Happened, miss Saldana

Nina Simone foi uma mulher única em todos os aspectos da sua vida.

Nina percebeu ainda cedo o peso de ser uma mulher negra que luta por seus sonhos em uma sociedade racista e patriarcal como era o caso dos EUA (o mundo todo, na verdade) quando ainda era Eunice Kathleen Waymon, seu nome de batismo.

O fato de ser uma mulher negra foi decisivo em sua vida, ainda que se aplique a todas as pessoas pretas. Definiu sua música, seu gênio, sua vida particular, seu posicionamento político e até mesmo sua forma de tocar piano.

Sonhava em ser uma pianista clássica, a primeira pianista clássica negra, mas foi forçada a desistir do seu sonho para poder trabalhar, uma vez que cantar foi praticamente uma imposição. Isso a colocou em um caminho como intérprete e musicista que a marcaria para sempre na história da música.

Sua voz única emociona, inspira, faz rir e chorar, muitas vezes ao mesmo tempo e na mesma música, pois ela cantava o que vivia. Sua música era uma manifestação de sua própria vida.

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Com uma personalidade forjada a força, sob as pancadas de um mundo violento que não a entendia, enfrentou o racismo com franqueza. Esteve nas marchas de Selma a Montgomery, identificava-se com o partidos dos Panteras Negras e defendia uma abordagem mais enérgica para combater o racismo nos EUA, país que abandonou, cansada de tanta dor e humilhação.

Sofreu retaliações por parte do Show Business, foi vítima de violência doméstica e rotulada como louca. Enfrentou um período de esquecimento até dar a volta por cima e entrar definitivamente para o panteão das Deusas artistas.

Sei que fiz um resumo grosseiro, embora apaixonado, de sua história, mas mesmo assim é inevitável dizer que sua vida daria um excelente filme.

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Pois bem, este filme está em produção e deve ser lançado ainda em 2016, mas não sem antes causar muita polêmica. Justa polêmica, diga-se de passagem.

Alguns nomes foram especulados para viver Nina nos cinemas e, após alguns percalços, a atriz Zoe Saldaña foi confirmada para o papel. Percebe-se logo que olhamos para Zoe que ela não lembra em nada a Nina Simone, uma vez que ela é muito mais clara e não tem o mesmo fenótipo da personagem que irá representar, mas o choque só foi percebido quando o primeiro trailer (Trailer do filme) foi disponibilizado, onde a atriz aparece “transformada” para representar o papel. Zoe aparece no trailer com a pele escurecida artificialmente (blackface?) e com prótese de nariz.

Zoe Saldana Rosemary

Zoe Saldaña

Sou suspeito para falar da Zoe Saldaña, uma atriz que gosto muito e respeito. Está em muitos filmes de sucesso, incluindo Avatar, o maior sucesso da história do cinema, mas para esse papel é evidentemente uma escolha equivocada.

Em primeiro lugar, como escrevi antes, Zoe não se parece em nada com Nina Simone. Sua pele é muito mais clara, destoando completamente da personagem retratada, cujo tom de pele foi decisivo na construção da sua personalidade e carreira. O fato de ter sua pele escurecida e de usar uma infame prótese nasal evidencia esse problema.

Segundo, existe uma carência gigantesca de papéis para atrizes negras, tanto no teatro e televisão quanto no cinema, como a atriz Viola Davis expressou recentemente. Onde está Gabourey Sidibe, atriz indicada ao Oscar pelo filme “Preciosa”? Ninguém nunca se perguntou por que a própria Viola Davis não aparece tanto em papéis de destaque quando suas colegas brancas? Elas não aparecem porque não existem papéis para atrizes negras e quando aparecem são dados para as atrizes que estejam o mais próximo possível da estética branca.

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Viola Davis no Emmy Awards 2015

E quando surge a possibilidade de fazer a cinebiografia de uma das mulheres negras mais icônicas da história esse papel simplesmente é dado para uma atriz que atende justamente os padrões pelos quais a Nina Simone era contrária. Quantos atores e atrizes surgiram para o grande público ao interpretar grandes personalidades?

Visibilidade essa que não falta a Zoe Saldaña, pois se enquadra em uma gama muito grande de papéis. Arrisco a dizer que ao aceitar esse papel Zoe pôs em xeque sua reputação com uma parte significativa do público desse filme.

Essa situação nos passa uma mensagem: Pessoas como Nina Simone não são aceitas em um filme, ainda que este filme seja sobre pessoas como ela.

Como Zoe poderá representar Nina enquanto a música Ain’t got no, ain’t got life é tocada e passar verdade com um nariz postiço? Como ela poderá representar uma mulher negra que luta contra o racismo fazendo blackface?  Desculpe-me, mas o que vejo é blackface sim.

Que bom que vivemos num tempo onde isso não passa sem protesto, mas espero viver num tempo onde isso não existirá mais.

Depois de um documentário que deturpava a figura da Nina como foi o What Happened, Miss Simone?, acredito que essa artista inigualável merecia mais respeito no cinema.

What Happened, Miss Saldaña?

Eles não sabem pelo que passamos

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Jack Johnson, 1908

Ando pelas ruas e sinto o peso de um milhão de olhares em minha direção. Olhares que me julgam.

Eles julgam a cor da minha pele, meu peso, meu cabelo, quem amo ou se minha dor é válida ou não. Dizem que não sirvo para o emprego, para o namoro, para fazer parte do grupo, da faculdade. Que a mesma cor de pele que foi motivo de me distanciar dos estudos hoje me coloca sem mérito na sala de aula.

Julgam que minha reivindicação não é justa, que não devo reclamar. Todos são iguais e as coisas são assim mesmo.

Esses olhares me seguem no Shopping, no mercado, na recepção, na casa dos amigos, esperando sempre um escorregão, um deslize para justificar tudo aqui que já pensam de mim. Para carimbar meu destino, para atender as baixas expectativas.

Olhos que se fecham quando o policial me aborda, me humilha e espanca. Olhares que não existem na noite solitária quando repenso toda minha vida e me questiono se realmente fiz alguma coisa errada. Olhares que não registram a lágrima salgada que escorre na pele escura diante do milésimo não, da milésima humilhação, da milésima piada, do milésimo quase.

Olhos cegos para a criança traumatizada que não quer mais ir à escola, que não quer mais sair de casa, que não quer mais ser negra,  pois está cansada de ser coagida, de ser o alvo.

Mas eles não sabem pelo que passei. Não sabem pelo que passamos.

Encaro esses rostos e seus olhares e vejo um medo devorador que nasce sem controle. Atrás desses olhos existe uma mente que sabe os crimes que cometeu. Os crimes que lhe beneficiaram, mas tenta, de todas as maneiras, acreditar que não sabe do que se trata.

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Enedina Alves Marques (à esquerda)

Sabe que mesmo depois de 500 anos matando, mentindo, subjugando, negando direitos básicos, associando minha imagem aos mais perversos estereótipos, mesmo depois de apagar minha história, minha religião, meu nome, meu passado. Sabe que mesmo criando todo um sistema que me desfavorece, que me oprime, que pisa em minha autoestima, me faz acreditar que sou feio, que não sirvo, que já tenho o que mereço, sabem que mesmo depois disso tudo eu não desisto.

Sabem que depois de tudo isso eu continuo de pé, e cada vez mais forte, cada vez mais firme.

No fundo de suas almas eles sabem que estou chegando e que não venho sozinho. Estou com meus irmãos e irmãs, cada vez mais sábios, cada vez mais fortes, donos de suas próprias vontades.

Não entendem como ainda consigo andar e, apesar das pancadas, mantenho a cabeça erguida.

João Cândido saindo escoltado

João Cândido

Uma pessoa negra incomoda muita gente, mas uma pessoa negra que sabe do seu passado e da sua identidade incomoda muito mais.

Hoje, 22 de fevereiro de 2016, Nina Simone completaria 83 anos. Ela não aceitou as migalhas, quis lutar e incomodou. Foi reprimida. Morreu, mas deixou na sua música um grito que não pode ser ignorado e que bate na cabeça racista com força.

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Num mesmo mês de fevereiro Malcolm X também morreu. Na verdade foi assassinado, porque estava incomodando também. Isso, porém, não nos desencoraja, pois nossa força foi forjada na terra primordial, no berço da raça humana, no fogo  e terra da África.

E vou continuar incomodando, porque estamos chegando e vamos querer de volta o que nos foi roubado.

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Sobre a intolerância dentro do teatro feito por pessoas brancas (por Bruno Laiso Felix)

 

imagem do texto do bruno

Crédito: Sofie Knijff/ Divulgação

Há pouco mais de 3 anos, sendo estudante de teatro, e frequentando semanalmente salas de teatro em São Paulo, venho me deparando com uma realidade que me incomoda cada dia mais: um teatro feito por gente branca, para gente branca, num país de gente preta.

Segundo o IBGE, mais da metade da população brasileira se declara negra ou parda, contudo, nesse texto não pretendo me valer dos argumentos a partir de estatísticas, porque elas estão aí para quem quiser se informar, e já sabemos bem da realidade do negro no Brasil.

No final do ano passado, assisti ao resultado de um processo seletivo da SP Escola de Teatro, onde dentre 24 aprovados para o curso de atuação, havia apenas uma moça afrodescendente. Questionei a escola e me disseram que não há racismo na instituição, que utilizam vários critérios, e a raça dos candidatos não é uma delas. Ok. Mais uma turma de atores brancos sendo formados numa instituição pública, para discutir várias questões, e quem sabe raciais, mas sob a ótica e execução de pessoas brancas, “tá certo, tá certinho”! Ontem fui assistir uma grande peça do cenário “alternativo”, “underground”, “lado B”,  de São Paulo, feita por aproximadamente 10 atores brancos, e nenhum negro. Até aí, tudo bem, foi apenas mais uma dentre tantas que vejo mensalmente.

Hoje, porém, foi a gota d’água.

Ao ler a declaração no facebook do Chico Carvalho, um ator que até então eu admirava muito, ao ver sua atuação em “Ricardo III” há 2 anos no teatro João Caetano, ele disse: “Está aí a prova de que a babaquice generalizada em forma de ressentimento acumulado vence mais uma vez. Vão fazer seminários, palestras, debates, simpósios ou o que seja sobre o que quer que seja, mas deixem em paz o campo simbólico da expressão.” Ele se refere à mudança da programação da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo), sobre a peça “Exhibit B” do artista sul africano Brett Bailey. O espetáculo sofreu ameaça de boicote por parte do movimento negro que disse não ver coerência em um espetáculo que reproduz as formas de torturas sofridas pelos seus ancestrais. Cedendo às pressões, a curadoria da mostra optou pela exibição da ópera “Macbeth” – trabalho do artista sobre a escravidão do Congo. Chico Carvalho termina sua declaração dizendo: “Debaixo desse valoroso pretexto de se buscar ‘um mundo melhor’, todos os Nelson Rodrigues vão pelo ralo (TODOS), e junto com ele o Plínio Marcos, Shakespeare, Molière, Aristófanes… e até sobrar ‘O Rapto das Cebolinhas’ para você levar a sua filha tranquilamente ao teatro. Se bem que raptar cebolinhas é um atentado contra o meio ambiente…”

Ao ler esta infeliz declaração, respondi para Chico Carvalho, em sua conta no facebook:

“Chico Carvalho, o que você (homem branco do teatro) chama de babaquice generalizada, eu chamo posicionamento político/racial.
Nós negros, queremos sim um mundo melhor, um mundo onde nossas opiniões sejam ouvidas, e muito me “admira” ver um posicionamento desses vindo de uma pessoa com uma experiência considerável no meio artístico.
Eu como um jovem ator negro, e antes disso, como um cidadão negro brasileiro, te peço para medir as suas palavras quando for falar das reivindicações dos movimentos negros deste país, que só existem porque fomos escravizados por 400 anos, e sofremos esse dano até hoje. Então vamos com calma, tente pensar além de sua referência acadêmica, que foi constituída quase 100% por homens brancos. Olhe um pouco para o país que vive e que faz teatro.
Falando nisso, o teatro é um dos lugares onde ainda se reproduz muito racismo, caso tenha dúvida, observe quantos atores negros vemos em cena, exceto o Teatro Oficina Uzyna Uzona, entre outros poucos grupos, fazemos um teatro de gente branca, para gente branca, ainda em 2016.”

O que está em questão nesse texto não é a legitimidade do trabalho do Brett Bailey, se a peça é ou não racista – não estou entrando no mérito desta discussão, mas sim sobre a audácia e desrespeito dos artistas brancos, quando vão se posicionar sobre as questões do movimento negro deste país. Estamos cansados da imposição desta gente branca que faz teatro, estuda as questões sociais, discute de tudo, mas ainda não conseguem olhar com o devido respeito para o lugar do negro no Brasil.

Meça suas palavras, parça! Que já foi o tempo em que aceitávamos fazer papéis subalternos no teatro, tv e cinema, e estava tudo bem. Não! Não está tudo bem, embora esteja para vocês (artistas brancos), nós negros, estamos em formação, para conquistar um espaço que vocês não querem abrir mão!

Queremos ver gente negra no palco, queremos discutir o que achamos ou não racismo, queremos espaço nas escolas públicas (universidades e escolas de teatro), já que não temos condições de pagar mensalidades altas em escolas privadas, que não por acaso são ocupadas por um exército de gente branca.

Estamos chegando, e vamos falar do Brasil, pelo viés e representatividade que poucas vezes assistimos!

Artista branco, apenas saia com seu racismo daqui!

Se ofendeu é porque foi ofensivo

 

lja reserva
É muito difícil olhar pra si mesmo com honestidade e não encontrar coisas odiosas que devem ser retiradas. Somos criados em uma sociedade baseada em exploração, crueldade e preconceitos, seja racismo, misoginia, homofobia ou especismo.
Sendo assim, é comum, não aceitável, que cometamos erros, principalmente na comunicação.
Felizmente temos muitos olhos alertas, nos ajudando a identificar nossos erros, nossas falhas e ,em alguns casos, caminhos para a melhora. Porém, para que essa melhora aconteça é necessário acreditar que “melhorar é preciso”.
O que vemos acontecer com frequência é o contrário, onde milhares de pessoas são flagradas em seus erros e tentam justifica-los, alegando principalmente que não houve a intenção de ofender, que foi uma brincadeira, que era um texto irônico ou coisas desse tipo.
Piadas racistas, misóginas e homofóbicas pipocam nas redes sociais, no canto do café no seu trabalho, numa festa, entre amigos e até mesmo entre um casal. E quando o fendido se manifesta logo recebe uma chuva de justificativas e até mesmo ataques como “essa é a geração mais chata que já existiu. Não se pode falar nada”, ou “mas foi uma brincadeira, não quis ofender”.
O que muitas pessoas não entendem é que não é preciso intenção para ofender.
Vamos para um exemplo:
Digamos que em certo dia, por um motivo desconhecido, você pegou uma pedra e jogou para cima. Em momento algum passou pela sua cabeça despreocupada a ideia de acertar alguém, machucar, tirar sangue, mas as leis da física nunca deixaram dúvidas de que aquela pedra que subiu iria descer. Digamos que ela acerte a cabeça de alguém e machuque essa pessoa, tirando sangue dela.
Você não mirou nela, não pensou em machucar, mas machucou.
Acontece a mesma coisa com nossas palavras e atitudes, machucamos, mesmo sem querer. Ofendemos, mesmo sem ter a intenção.
É claro que esse texto não contempla aqueles que são abertamente criminosos e miram na cabeça de alguém e jogam a pedra de uma forma que fira o máximo possível. Refiro-me aos milhões que apenas surfam a onda, que se beneficiam dos privilégios obtidos nos últimos séculos com crimes das gerações anteriores e que simplesmente se esquecem da história ou são ignorantes o suficientes para achar que a história começou com o seu nascimento e não acredita em nada que não possa ter visto em seu curto e inexpressivo espaço de vida.
Muitos casos recentes revelam esse olhar míope da nossa geração para o passado, mas o recente caso da Loja Reserva é muito emblemático.
A loja exibiu em suas vitrines em um shopping, manequins negros pendurados de cabeça para baixo. Não demorou muito para que isso fosse devidamente denunciado, porém as justificativas e ataques voltaram em igual velocidade. O mais assustador é percebe que a maioria das justificativas mais terríveis vinham de jovens, pessoas que acreditamos ter uma mente mais aberta para questões sociais e que podem olhar para a história de forma mais crítica e sincera. Tudo isso acompanhado da seguinte citação “a gente ta num mundo tão chato que daqui a pouco não vai poder sorrir pq é preconceito com quem não tem dente”.
Pois é, se você que mora no Brasil, o último país do mundo a abolir formalmente a escravidão, o pais que mais recebeu cativos do continente Africano para o trabalho escravo; um dos países em que a polícia mais mata, curiosamente jovens negro; onde a maioria da população marginalizada e presa é negra, se você mora num pais como esse e não consegue problematizar a imagem de um manequim negro pendurado de cabeça pra baixo, então você tem sérios problemas.
Sigo o seguinte princípio em minha vida: Se ofendeu é porque foi ofensivo.
Simples assim. Sou homem hétero, e neste caso eu posso falar muitas atrocidades sem ter a intenção de ofender, mas ofender mesmo assim. Caso alguém me diga: Rodrigo, o que você falou foi ofensivo. Eu tenho o dever de pedir desculpas e nunca mais repetir. Nada de justificativas, explicações, nada. Peça desculpas e nunca mais repita.
Não importa se você não quis ofender, o que importa é que você ofendeu.
Acredite, entender isso vai lhe ajudar a se tornar uma pessoa melhor e menos babaca.
Repito, se ofendeu é porque foi ofensivo.

Master of none – uma série moderna

master of none

Talvez o que mais me afasta da minha geração, nascida nos anos 80, é o meu total desprezo às séries.
Não tenho uma explicação elaborada para isso, apenas não encontro um série que me faça dedicar algumas preciosas horas ao longo de muitos episódios para acompanhar uma história. Quem sabe o problema sejam as histórias, não sei ao certo. O que sei é que assisto os primeiros episódios e invariavelmente deixo de acompanhar. Essa característica me confere uma desvantagem em rodas de conversas, mesmo entre amigos, pois não consigo acompanhar os assuntos, principalmente quando começam a falar dos personagens como se fossem amigos em comum.
Pois bem, o mundo dá voltas, e numa dessas voltas eu achei, sem querer, a série Master os none, criada e estrelada pelo comediante Aziz Ansari. Assisti o primeiro episódio só pra ver qual era da séria, pois nunca havia lido ou ouvido nada sobre ela, não sabia nada sobre a série, mas como é um produção original Netflix fiquei mais confiante para ver alguns minutos.
Comecei na sexta-feira a noite, acabei no domingo, vendo todos os episódios num único final de semana.
A série acompanha a vida do ator nova-iorquino Dev (Ansari), onde situações do seu cotidianos viram combustível para piadas que beiram a genialidade e ao mesmo tempo reflexões que, na pior das hipóteses, renderá algumas horas de conversas entre amigos. Nada escapa do radar de Ansari e Alan Young, co-criador da série, que falam sobre racismo, casamento, filhos, pais, machismo e toda sorte de temas que estão presentes em nossas vidas. Mesmo algumas situações banais, que geralmente deixamos passar sem notar, viram momentos maravilhosos na série, como no episódio em que Dev quer convidar uma mulher para ir à um show. As piadas são precisas, sem gordura, no nível correto para ser engraçado sem tirar a relevância do tema abordado.
Os amigos de Dev também conferem um conteúdo especial aos episódios, mesmo que fique a impressão que poderiam ser ter sido mais utilizados, mas creio que numa segunda temporada (espero que aconteça) eles possam ter mais espaço, mas isso não enfraquece em nada a temporada como um todo.
A produção é impecável, típico das séries originais da Netflix. A direção de arte é elegante, em alguns momentos bem discreta, mas deixa sua marca, é muito difícil não notar o capricho nos cenários, objetos e figurino.
A fotografia é belíssima, proporcionando tomadas lindas, mesmo em cenas simples, conferindo uma aura de produção cara em todos os episódios, sem pompa ou preciosismo.
A trilha sonora é outro ponto de destaque, com músicas inesperadas, mas que de alguma forma casam perfeitamente com o tom da produção, criando as vezes um contraste bonito e inteligente, mas respeitando o conjunto. Não fica aquela impressão de novela, com músicas no modo aleatório, brigando com o clima da cena. Em Master of none tudo trabalha para entregar alguns dos mais belos e engraçados episódios que você verá em uma série este ano. O episódio sobre Nashville é um bom exemplo.
Nada disso seria suficiente, se o texto fosse fraco, mas é aqui o maior mérito da criação de Ansari. Como foi dito anteriormente, nada foge do radar da série, mas tudo é capturado sem pretensão, sem didatismo. Mesmo os temas mais complexos são abordados com simplicidade e honestidade. Os diálogos fogem do padrão em que fica muito evidente que os personagens sabem o que será dito pelo companheiro, pois a imprevisibilidade reina em cada cena. É bem difícil adivinhar o que cada personagem fará eu dirá, mesmo os conhecendo melhor. Também é louvável a capacidade dos roteiristas e diretores da série para mesclar o cômico e o reflexivo, alternando entre os dois sem parecer forçado
O texto não escorrega ao tratar da tecnologia em nossas vidas, principalmente o smartphone, presente em muitos episódios e podemos falar, mesmo que seja um pouco exagerado, que se trata de um personagem não creditado.
A versão dublada, para quem gosta, é muito caprichada e não compromete.
Em resumo, Master of none é o que há de mais moderno, honesto, caprichado e relevante no concorrido mundo das séries. Uma série brilhante.