No espelho uma pessoa preta

no espelho uma pessoa preta

Observando minha vida, o mundo ao meu redor e até mesmo a história da nossa civilização, uma verdade inconveniente se revela bem diante dos meus olhos: temos a mania doentia de amar nossos opressores.

Roma, em seu auge, dominava do norte da Europa ao norte da África, passando pelo Oriente Médio. Milhares de culturas foram perseguidas, destruídas ou simplesmente assimiladas pelo romanos que classificavam como bárbaro qualquer um que não fosse romano. Não deixa de ser curioso o fato de que muitos dos povos que estiveram tanto tempo sob o julgo romano adotaram suas práticas e costumes após a queda do império. A arquitetura romana até hoje é um símbolo de nobreza e poder em países como a Inglaterra, terra cujos povos nativos tanto sofreram nas mãos do exército de César (Caesar).

Durante a invasão européia ao território que hoje é o Brasil, culturas inteiras, tanto as nativas como as dos povos escravizados trazidos para cá, foram destruídas. Não só a parte material, mas também todo a história, local de nascença, nome, religião, até que não restou mais nada além de um corpo vazio, livre para ser manipulado e preenchido com o que fosse mais conveniente ao invasor.

Na mente desse corpo foi colocada a ideia de que não existia nada antes do homem branco chegar, e se algo existia era ruim e por isso não deve ser preservado. Foi implantada a ideia de que o belo pode ter uma definição e ela é branca, tem cabelos lisos e claros. A ideia de que o negro simboliza o mal, o ruim, o doente, o diabo (seja lá o que for esse tal de diabo).

Muitas pessoas, quando aprisionadas e encarceradas num navio negreiro a caminho do Brasil não eram associadas ao seu local de nascimento, mas sim ao porto de onde o navio saiu, apagando assim todo a sua história. Eram jogadas num espaço minúsculo com centenas de outras pessoas de nações, costumes e idiomas totalmente diferentes. Ao chegar em terras brasileiras, recebia um outro nome, escolhido por quem o comprou, nomes que trazemos até hoje.

É normal um homem branco, que consegue montar sua árvore genealógica com mais de 300 anos de história, chamar-se Moreira, Garcia, Teles e por ai vai. Agora, uma pessoa negra, que evidentemente tem sua ancestralidade na África, não poderia ter nomes assim vindo da terra de seus antepassados. Foram nomes impostos. Nossa árvore genealógica existe, mas está enterrada. Não conseguimos remontar a linhagem de nossas famílias sem esbarrar na senzala e o que veio antes desse crime foi completamente apagado.

Após essa lavagem cerebral em massa, geração após geração, vemos pessoas negras fazendo uma espécie de “arqueologia genética”, cavando sua história na esperança de encontrar um parente italiano, português, alemão para pleitear a tão sonhada dupla cidadania com algum país europeu. Assim como os povos que outrora foram chamados de bárbaros pelos Romanos, caçados e oprimidos, hoje usam o latim como símbolo de sabedoria e erudição, nós usamos elementos da cultura europeia para nos legitimar. Lemos todos os pensadores europeus para parecer inteligentes, somos devotos de suas religiões e em nome delas perseguimos as de nossos antepassados. Ouvimos música “erudita” para parecer culto e aceitamos a classificação de “world music” ao que vem do “resto do mundo”, já que o que é erudito só poderia vir da Europa.

Porém, não importa quanta maquiagem eu use, quantos termos “eruditos” eu aprenda, no espelho ainda há um homem preto, cuja melanina não passa despercebida pelos policiais, recrutadores em empresas, guardas de shopping e tudo o mais.

Hoje, sou um homem preto que aos pouco está aprendendo a se ver melhor nesse espelho, identificar o que é natural e o que me foi imposto muitos tempo antes do meu nascimento. Amar-se não é uma tarefa tão fácil quando se passou a vida toda sendo ensinado que o belo e aceitável é o seu oposto, mas o simples fato de abrir os olhos nos proporciona possibilidades infinitas de libertação.

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