O homem que não ama as mulheres

homem-pilantra-feliz dia das mulheres

A luz do sol invadiu o seu quarto aproveitando uma pequena fresta na janela, mas o suficiente para despertá-lo de um sono tranquilo.

Abriu o guarda-roupa e escolheu despreocupadamente suas roupas, sem ponderar nada, apenas seu gosto e desejo. Tomou um café reforçado e foi trabalhar.

Atrasou propositalmente sua saída para coincidir com a saída da sua vizinha, um alvo certo dos seus olhares sedentos, para poder acompanha-la até o ponto com alguma piada constrangedora ou comentário jocoso sobre as pessoas na rua que por algum motivo estivessem fora dos padrões do aceitável, curiosamente a maioria das vítimas era mulher.

Sua vizinha, quando era castigada por sua companhia, descia um ponto antes do necessário, apenas para abreviar aquele suplício e esconder seu local de trabalho, embora na cabeça do nosso herói ele estive fazendo consideráveis avanços em direção ao coração da jovem.

Antes de a jovem descer, pensando no quanto deveria andar desnecessariamente, ela ouviu um “feliz dia das mulheres” acompanhado de um daqueles sorrisos cínicos de vendedor de bugigangas, marca registrada do nosso Clark Gable.

Nosso valoroso representante da família de bem continuou seu caminho por mais quatro pontos, para desespero das mulheres daquele ônibus, pois nenhuma perna, decote ou calça um pouco mais justa passava sem a devida fiscalização dos seus olhos famintos. Em seu mundo paralelo, por motivos desconhecidos pela ciência, ele acreditava receber respostas, quando não positivas, pelo menos neutras.

Chegou ao trabalho, encontrou alguns amigos na mesinha do café e atualizou a conversa sobre futebol, vídeo game e… bom, mulheres. Descreveu eufórico seu progresso com a vizinha, do quanto está perto de ser mais uma conquista, fazendo seu mês começar de forma positiva, para o orgulho geral dos colegas. Nesse instante, chega uma estagiária segurando uma pilha de papéis. A moça sente de imediato todos os olhares predatórios em sua direção e quase não conseguia continuar na mesma direção, tamanho o desconforto a que foi submetida.

Nem o visível incômodo da jovem redirecionou os olhos dos caras, que tentaram pronunciar alguma coisa, mas nada inteligível saia de suas bocas salivantes, até que o transe foi quebrado por uma pasta que a estagiária deixou cair.

Nosso herói, sempre prestativo e cavalheiro, correu como se uma vida dependesse da velocidade de suas pernas e pegou a pasta, ainda que a moça já estive na iminência de fazer o mesmo e de forma confortável, diga-se de passagem.

Seus olhos tarados, treinados por toda vida, encontraram um pequeno espaço em sua blusa, algo que jamais seria chamado de decote, mesmo com muita boa vontade, mas o suficiente para ativar um instinto primitivo que o impedia de desviar o olhar, causando um desconforto ainda maior na já desconfortável situação.

Sentou em sua mesa, abriu o navegador e sempre que podia curtia uma foto aqui, outra ali, fazia comentário sobre feminismo, racismo e qualquer outro assunto do qual soubesse pouco ou quase nada, mas sentia uma força grande, incontrolável de ter a palavra.

Enviou dezenas de mensagem felicitando suas amigas, a mãe, suas primas, namoradas de amigos, ex-namorada e até desconhecidas, mas que apareciam em sua linha do tempo como alguém que ele “talvez” conhecesse. Curtiu e compartilhou outros tantos banners e memes sobre a mulher ideal e o quanto aquele dia era especial para elas.

Seu colega da mesa ao lado lhe chamou e disse:

– Você ficou sabendo? A Fê foi estuprada quando voltava da faculdade.

– Também – respondeu prontamente nosso amigo – com as roupas que ela usa até mesmo um Padre ficaria tentado. Ela não devia andar tarde por ai, quem procura um dia acha. E não estou dizendo que foi certo, mas ela não fica por aí defendendo bandido? Vamos ver se a turma dos “direito zumano” vai aparecer pra ajudar.

E nesse ritmo ele seguiu por todo o dia.

Na faculdade encontrou outro grupo de amigos na lanchonete e o mesmo cenário da mesa do café na empresa se repediu, mas em escala maior.

Na porta da faculdade havia um vendedor de rosas que estava ali por pura coincidência, mas nosso incansável cavalheiro não perdeu tempo e comprou uma para sua namorada, que por uma casualidade também estuda na mesma instituição.

Perdeu os primeiros vinte minutos da aula de ética no ambiente de trabalho para poder fazer uma cena na porta da sala da sua amada para lhe presentear com uma rosa e um beijo. Apertou bem ela nos seus braços, declarou amor e lhe disse: “Feliz dia das mulheres, amor”.

Finalizado esse espetáculo, ele tomou o rumo da sua sala, mas não sem antes lançar seu olhar indiscreto para uma jovem que passava apressada no corredor. Ele pensou “como eu amo as mulheres”, mas estava enganado, pois apenas as desejava, tanto quanto um pedaço de carne numa tarde de churrasco em família.

Nada em seus gestos trazia a vaga ideia de amor ou respeito, apenas desejo incontrolável, desrespeitoso e mortífero. Homens como esse são responsáveis por milhares de mortes de mulheres todos os anos, mortes essas invisibilizadas por uma sociedade liderada por homens misóginos e doentios que cruzam nossos caminhos todos os dias. Alguns ferem a carne, mas outros as ferem na alma.

Se por algum motivo sentiu falta do nome do nosso ilustre paladino, sugiro que use qualquer um de algum homem que conheça, garanto que será fiel ao personagem.

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