What Happened, Miss Saldaña?

 

What Happened, miss Saldana

Nina Simone foi uma mulher única em todos os aspectos da sua vida.

Nina percebeu ainda cedo o peso de ser uma mulher negra que luta por seus sonhos em uma sociedade racista e patriarcal como era o caso dos EUA (o mundo todo, na verdade) quando ainda era Eunice Kathleen Waymon, seu nome de batismo.

O fato de ser uma mulher negra foi decisivo em sua vida, ainda que se aplique a todas as pessoas pretas. Definiu sua música, seu gênio, sua vida particular, seu posicionamento político e até mesmo sua forma de tocar piano.

Sonhava em ser uma pianista clássica, a primeira pianista clássica negra, mas foi forçada a desistir do seu sonho para poder trabalhar, uma vez que cantar foi praticamente uma imposição. Isso a colocou em um caminho como intérprete e musicista que a marcaria para sempre na história da música.

Sua voz única emociona, inspira, faz rir e chorar, muitas vezes ao mesmo tempo e na mesma música, pois ela cantava o que vivia. Sua música era uma manifestação de sua própria vida.

nina simone

Com uma personalidade forjada a força, sob as pancadas de um mundo violento que não a entendia, enfrentou o racismo com franqueza. Esteve nas marchas de Selma a Montgomery, identificava-se com o partidos dos Panteras Negras e defendia uma abordagem mais enérgica para combater o racismo nos EUA, país que abandonou, cansada de tanta dor e humilhação.

Sofreu retaliações por parte do Show Business, foi vítima de violência doméstica e rotulada como louca. Enfrentou um período de esquecimento até dar a volta por cima e entrar definitivamente para o panteão das Deusas artistas.

Sei que fiz um resumo grosseiro, embora apaixonado, de sua história, mas mesmo assim é inevitável dizer que sua vida daria um excelente filme.

Nina+Simone1

Pois bem, este filme está em produção e deve ser lançado ainda em 2016, mas não sem antes causar muita polêmica. Justa polêmica, diga-se de passagem.

Alguns nomes foram especulados para viver Nina nos cinemas e, após alguns percalços, a atriz Zoe Saldaña foi confirmada para o papel. Percebe-se logo que olhamos para Zoe que ela não lembra em nada a Nina Simone, uma vez que ela é muito mais clara e não tem o mesmo fenótipo da personagem que irá representar, mas o choque só foi percebido quando o primeiro trailer (Trailer do filme) foi disponibilizado, onde a atriz aparece “transformada” para representar o papel. Zoe aparece no trailer com a pele escurecida artificialmente (blackface?) e com prótese de nariz.

Zoe Saldana Rosemary

Zoe Saldaña

Sou suspeito para falar da Zoe Saldaña, uma atriz que gosto muito e respeito. Está em muitos filmes de sucesso, incluindo Avatar, o maior sucesso da história do cinema, mas para esse papel é evidentemente uma escolha equivocada.

Em primeiro lugar, como escrevi antes, Zoe não se parece em nada com Nina Simone. Sua pele é muito mais clara, destoando completamente da personagem retratada, cujo tom de pele foi decisivo na construção da sua personalidade e carreira. O fato de ter sua pele escurecida e de usar uma infame prótese nasal evidencia esse problema.

Segundo, existe uma carência gigantesca de papéis para atrizes negras, tanto no teatro e televisão quanto no cinema, como a atriz Viola Davis expressou recentemente. Onde está Gabourey Sidibe, atriz indicada ao Oscar pelo filme “Preciosa”? Ninguém nunca se perguntou por que a própria Viola Davis não aparece tanto em papéis de destaque quando suas colegas brancas? Elas não aparecem porque não existem papéis para atrizes negras e quando aparecem são dados para as atrizes que estejam o mais próximo possível da estética branca.

VIOLA-DAVIS-facebook

Viola Davis no Emmy Awards 2015

E quando surge a possibilidade de fazer a cinebiografia de uma das mulheres negras mais icônicas da história esse papel simplesmente é dado para uma atriz que atende justamente os padrões pelos quais a Nina Simone era contrária. Quantos atores e atrizes surgiram para o grande público ao interpretar grandes personalidades?

Visibilidade essa que não falta a Zoe Saldaña, pois se enquadra em uma gama muito grande de papéis. Arrisco a dizer que ao aceitar esse papel Zoe pôs em xeque sua reputação com uma parte significativa do público desse filme.

Essa situação nos passa uma mensagem: Pessoas como Nina Simone não são aceitas em um filme, ainda que este filme seja sobre pessoas como ela.

Como Zoe poderá representar Nina enquanto a música Ain’t got no, ain’t got life é tocada e passar verdade com um nariz postiço? Como ela poderá representar uma mulher negra que luta contra o racismo fazendo blackface?  Desculpe-me, mas o que vejo é blackface sim.

Que bom que vivemos num tempo onde isso não passa sem protesto, mas espero viver num tempo onde isso não existirá mais.

Depois de um documentário que deturpava a figura da Nina como foi o What Happened, Miss Simone?, acredito que essa artista inigualável merecia mais respeito no cinema.

What Happened, Miss Saldaña?

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5 comentários

  1. Ricardo · março 4, 2016

    Tomei um susto quando vi ela maquilada a primeira vez, chegou a parecer meio ridículo, mas não tinha pensado pelo lado da black face. Obrigado por trazer essa reflexão.

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    • Rodrigo Teles Medrado · março 4, 2016

      Eu que agradeço pela sua visita, Ricardo. Realmente, as opiniões diversas nos ajudam a visualizar coisas que antes nos eram nubladas. Espero que goste do restante do conteúdo do blog.

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  2. Luiza · março 5, 2016

    Como uma grande admiradora da Nina Simone, é uma decepção ver a forma como ela tem sido retratada. O documentário do netflix, logo o netflix todo “descolado” e mente aberta, foi simplesmente patético. Renovei minhas esperanças com o filme: finalmente uma representação de Nina nos portes da diva que ela foi. Não poderia estar mais enganada ):

    Tenho fé que um dia irei ao cinema ver uma mulher negra, de bochechas grandes e cabelo naturalmente crespo cantanto “marriage is for old folks” (uma das minhas músicas favoritas dela! Que audácia cantar algo assim nos anos 60) sem blackface nem protese nasal.

    Abraços
    Lu

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    • Rodrigo Teles Medrado · março 6, 2016

      Eu também tenho essa fé. Felizmente a Nina é muito maior do que todo o desrespeito que vemos por parte do cinema.

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  3. Gabriela Leite · março 15, 2016

    Confesso que quando o trailer saiu, eu não enxergava o problema de ser a Zoe. Gosto muito do trabalho dela e sempre a admirei. Mas a cada dia que passa, cada textinho que eu venho descobrindo sobre o filme, eu abro meus olhos para o verdadeiro problema. Muito tocante quando você diz “como Zoe poderá representar Nina enquanto a música Ain’t got no, ain’t got life é tocada e passar verdade com um nariz postiço?”. Como mostrar uma mulher negra se a sua força negra é mascarada para atender os caprichos de hollywood e de uma sociedade que, a cada dia, não aceita o negro como ele é? Ótimo texto!

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