Eles não sabem pelo que passamos

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Jack Johnson, 1908

Ando pelas ruas e sinto o peso de um milhão de olhares em minha direção. Olhares que me julgam.

Eles julgam a cor da minha pele, meu peso, meu cabelo, quem amo ou se minha dor é válida ou não. Dizem que não sirvo para o emprego, para o namoro, para fazer parte do grupo, da faculdade. Que a mesma cor de pele que foi motivo de me distanciar dos estudos hoje me coloca sem mérito na sala de aula.

Julgam que minha reivindicação não é justa, que não devo reclamar. Todos são iguais e as coisas são assim mesmo.

Esses olhares me seguem no Shopping, no mercado, na recepção, na casa dos amigos, esperando sempre um escorregão, um deslize para justificar tudo aqui que já pensam de mim. Para carimbar meu destino, para atender as baixas expectativas.

Olhos que se fecham quando o policial me aborda, me humilha e espanca. Olhares que não existem na noite solitária quando repenso toda minha vida e me questiono se realmente fiz alguma coisa errada. Olhares que não registram a lágrima salgada que escorre na pele escura diante do milésimo não, da milésima humilhação, da milésima piada, do milésimo quase.

Olhos cegos para a criança traumatizada que não quer mais ir à escola, que não quer mais sair de casa, que não quer mais ser negra,  pois está cansada de ser coagida, de ser o alvo.

Mas eles não sabem pelo que passei. Não sabem pelo que passamos.

Encaro esses rostos e seus olhares e vejo um medo devorador que nasce sem controle. Atrás desses olhos existe uma mente que sabe os crimes que cometeu. Os crimes que lhe beneficiaram, mas tenta, de todas as maneiras, acreditar que não sabe do que se trata.

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Enedina Alves Marques (à esquerda)

Sabe que mesmo depois de 500 anos matando, mentindo, subjugando, negando direitos básicos, associando minha imagem aos mais perversos estereótipos, mesmo depois de apagar minha história, minha religião, meu nome, meu passado. Sabe que mesmo criando todo um sistema que me desfavorece, que me oprime, que pisa em minha autoestima, me faz acreditar que sou feio, que não sirvo, que já tenho o que mereço, sabem que mesmo depois disso tudo eu não desisto.

Sabem que depois de tudo isso eu continuo de pé, e cada vez mais forte, cada vez mais firme.

No fundo de suas almas eles sabem que estou chegando e que não venho sozinho. Estou com meus irmãos e irmãs, cada vez mais sábios, cada vez mais fortes, donos de suas próprias vontades.

Não entendem como ainda consigo andar e, apesar das pancadas, mantenho a cabeça erguida.

João Cândido saindo escoltado

João Cândido

Uma pessoa negra incomoda muita gente, mas uma pessoa negra que sabe do seu passado e da sua identidade incomoda muito mais.

Hoje, 22 de fevereiro de 2016, Nina Simone completaria 83 anos. Ela não aceitou as migalhas, quis lutar e incomodou. Foi reprimida. Morreu, mas deixou na sua música um grito que não pode ser ignorado e que bate na cabeça racista com força.

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Num mesmo mês de fevereiro Malcolm X também morreu. Na verdade foi assassinado, porque estava incomodando também. Isso, porém, não nos desencoraja, pois nossa força foi forjada na terra primordial, no berço da raça humana, no fogo  e terra da África.

E vou continuar incomodando, porque estamos chegando e vamos querer de volta o que nos foi roubado.

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