Brancos, eu disse não!

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Uma pergunta precisa ser respondida: Por que os brancos ficam tão revoltados quando ouvem “não”?
Caso 1
Pessoa Negra: Não me ensine sobre racismo!
Pessoa Branca: Por que não posso opinar? Essa separação só reforça o racismo! Você é racista, sabia?
Caso 2
Pessoa Negra: Esse grupo é um espaço para debater assuntos ligados à comunidade afro-brasileira, como racismo, e por motivos óbvios brancos não serão aceitos.
Pessoa branca: Por que não? Está me impedindo de participar de um grupo por ser branca(o)? Isso é segregação, sabia? Isso só reforça o racismo!
Caso 3
Pessoa Negra: Dependendo da forma que você usar certos elementos da cultura afro-brasileira pode sim ser considerando apropriação cultural.
Pessoa Branca: Como assim? Ridículo! Agora não posso mais ouvir samba nem hip hop? Você nem sabe do que esta falando, vai estudar um pouco antes de falar besteira.

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Bom, eu poderia dar mais exemplos, mas esses são suficientes.
Vivemos numa sociedade onde só lemos e ouvimos o que queremos. É muito difícil você se colocar numa situação onde sua vontade não seja atendida de forma instantânea, principalmente se você tiver dinheiro e for branco.
Quem tem mais de 25 anos talvez vá se lembrar de um tempo onde era preciso ouvir uma sequência de músicas das quais não gostávamos para poder apreciar aquela tão aguardada faixa, muito comum nas rádios FM. Quem nunca comprou um CD por causa de uma música? Hoje é um pouco diferente.
Com a opinião, principalmente na internet, a coisa é parecida. E se o assunto for racismo, machismo e homofobia, escorrem muitos megabytes de sangue na tela.
É muito difícil para uma pessoa que viveu cercada por privilégio adquiridos com crimes históricos, onde seus semelhantes foram tratados como heróis, desbravadores, conquistadores, ouvir que sobre certos assuntos a sua opinião não é relevante.
Dói muito, para um homem branco, ouvir que sobre esse ou aquele tema ele não tem propriedade para opinar. Logo ele, pensador, exemplo de cultura e inteligência. Logo ele, parâmetro da pessoa de bem.
O Brasileiro se vê como um paladino da justiça e ética cercado de pessoas imundas e corruptas. O racista é o outro, não ele. O machista é o outro, não ele.
Quando o assunto é racismo, a coisa tende a piorar, onde muitas vezes a vítima é colocada como opressora por não deixar o opressor opinar sobre sua dor.
Segundo pesquisa de 2014, 92% creem que há racismo no Brasil, mas apenas 1,3% se considera racista.

http://www.inctinclusao.com.br/noticia/93/o-racismo-nosso-de-cada-dia

Essas pessoas ficam muito bravas quando encontram uma mulher negra ou um homem negro que olhe bem no fundo dos seus olhos e diga: Não! Aqui não!
Isso fere um orgulho construído ao longo dos últimos 500 anos, hidratado com o sangue de milhões de pessoas. Não é um orgulho qualquer, é um orgulho antigo.
Pessoa branca: Eu não concordo!
Bom, o fato de você concordar ou não é irrelevante, porque uma verdade será sempre uma verdade, independente de quantas pessoas acreditam nela. Isso precisa ficar claro.
Pessoa branca: Não é preciso ser negro para sofrer racismo! Eu sou branco e sei como é ser discriminado!
Bom, se você já foi parado pela polícia apenas por ser branco, se você já perdeu alguma vaga de emprego apenas por ser branco, se você recebe um salário menor apenas por ser branco, se já aconteceu alguma dessas coisas, então vou dizer que você sabe como é, apesar de mesmo assim não ter sofrido racismo.
Caso você não se encaixe em nenhuma das opções, sobre esse assunto você não tem nenhuma opinião importante.
Não vejo nenhum problema em ter negros e brancos lutando contra o racismo, desde que o branco não queira dar lição, explicar com o quê uma pessoa negra deve se ofender. A falta de empatia, o discurso desonesto e o caráter duvidoso de certos simpatizantes colocam essa aliança em descrença, uma vez que não é preciso muito esforço para ouvir discursos sobre a fantasia do racismo reverso.
Recentemente escrevi um texto intitulado “Ser preto esta na moda, desde que você não seja preto”, e a muitas pessoas (uma grande parte curiosamente branca) se apegou ao discurso do turbante, quando essa palavra só aparece uma vez no texto. Por que isso aconteceu? Aconteceu porque é desconfortável encarar a palavra racismo, prefiro falar sobre turbantes.
O texto não era sobre turbantes.
Falar de racismo é desconfortável, para o negro e para o branco consciente, não é uma coisa divertida. Divertido é jogar futebol, assistir filme, não falar de racismo. Então, se quiser realmente ajudar a desconstruir o racismo, você precisa saber ouvir, apenas ouvir.
Aqui, sobre esse tema, o branco não tem voz.
Pessoa branca: Não concordo, eu tenho…
Branco, eu disse não!
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6 comentários

  1. Pingback: Brancos, eu disse não! - Geledés
  2. Keice Farias · agosto 15, 2015

    Perfeito!!! Queria que todas as pessoas que eu conhecesse pudessem ler esse texto.

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  3. Telmo Kiguel · agosto 15, 2015

    Estas discussões sem fim continuarão existindo enquanto não houver interesse em definir a Conduta Discriminatória como em:
    http://saudepublicada.sul21.com.br/2014/05/11/conduta-discriminatoria-tentativa-de-conceituacao-motiva-correspondencia-entre-psiquiatras-2/
    Ou mais especificamente quem é o Discriminador Racial como foi sugerido no livro (EUA) “Americanah” de Chimamanda Ngozi Adichie:
    http://saudepublicada.sul21.com.br/2014/09/18/sindrome-do-disturbio-racial-seria-um-bom-diagnostico-para-o-racista-brasileiro-e-para-o-antissemita/

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  4. Leop · agosto 16, 2015

    Você focou na esfera política no texto, mas essa dificuldade em ouvir não de pessoas pretas se faz muito presente no campo sexual e afetivo. É interessante como algumas pessoas brancas percebem que você não se empolga com a “loiritude” delas. De vez em quando tenho a impressão de que em algum lugar tá escrito que tenho a obrigação moral de corresponder ao desejo de pessoas brancas, principalmente loiras. Bizarro!

    Curtido por 1 pessoa

    • Fer · agosto 17, 2015

      Cara, eu sou branca. Me atraio fisicamente por pessoas negras, mas nunca fiquei com nenhuma. Não foi por falta de interesse (sou tímida, não consigo pedir pra ficar com ninguém, não fiquei com muitas pessoas na minha vida…), mas tenho um baita medo de chegar e, de alguma forma, ofender. Tenho medo de que a outra pessoa pense que é só fetiche. E, sinceramente, saberia ouvir “não”: ninguém é obrigado a ficar comigo ou dizer sim por causa da minha cor. Mas entendo que isso deva acontecer muito e isso é muito triste e revoltante.

      Mas o que nós (brancos e brancas) deveríamos fazer ou como deveríamos agir quando sentimos atração por alguma pessoa negra – principalmente as mais politizadas-? Qual é a melhor postura para que não oprimamos ou ofendamos quem é negro? (Não adianta agirmos com naturalidade, quando na maioria dos casos não entendemos o ponto de vista dos outros e acabamos reproduzindo preconceitos)… Então, como faz?
      Tenho medo de perguntar sobre isso a amigos e ser mal interpretada.

      (desculpem se pareceu ofensivo, não é essa a intenção….)

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      • Leop · agosto 25, 2015

        No seu texto não fica bem definido o que você quer dizer com fisicamente. É tipo um imã magnético ou uma questão de preferência? Sem saber realmente o que as pessoas querem dizer por “questão de gosto” eu tendo a achar que não há problema algum em termos predileções, o problema maior é quando elas excluem todo o resto. Por exemplo falar que a sua fruta favorita émaça não quer dizer que não se gosta de pera, de uva ou de tomate.

        Como você diz que apesar dessa sua preferência nunca ter ficado com uma pessoa negra, imagino que esse não seja o seu caso, contudo, talvez não tenha entendido direito a sua confusão.

        Acredito que uma das maiores dificuldades em se debater racismo com pessoas brancas, ainda mais no campo afetivo é que todo mundo acha que há algo de instintivo na libido. Como se seres humanos tivessem períodos de cio e não fossemos influenciados pela cultura na hora de escolher nossos parceiros.

        Por você ter esse cuidado e disposição em não ofender possíveis parceiros negros, eu acho que você já começa bem. O que eu acho que voce pode fazer é se informar sobre racismo e manter essa consciência de que você pode ser racista mesmo sem querer. No fim das contas o que vale é como você reage quando apontam racismo em você. Então o conselho que posso dar é: eduque-se e aceite a palavra de pessoas negras se alguma atitude sua for problematizada como racista. No mais, em termos de flerte é só agir como você faria com qualquer pretendente branco. Só um detalhe: se eu fico com alguém branco e essa pessoa diz que “sempre quis ficar com um negro” não vejo como essa pessoas não estaria me exotificando, já que não há nada de anormal em ser negro.

        Boa sorte!

        Curtido por 1 pessoa

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