Todo branco é contra o racismo, desde que o negro fique “comportado”

Hepburn_tracy_guess_whos_coming_to_dinner

Há muito tempo assisti um filme chamado “Adivinhe quem vem para o jantar” (Guess Who’s Coming to Dinner) de 1967, dirigido por Stanley Kramer.
O filme conta a história de uma garota branca, filha de um casal liberal e defensor fervoroso dos direitos civis, que conhece um médico negro no Hawaii e decidem se casar. Quando ela conta a noticia para os seus pais a reação deles é surpreendentemente negativa (pelo menos para ela.)
Sei que o filme possui muitos problemas, mas uma frase dita pelo pai dela me marcou muito. Em determinado momento do filme, ao ouvir que o mundo estava mudando, ele diz: É, mas parece que esta mudando apenas no meu jardim.
É engraçado como isso me marcou mais do que o resto do filme, mais do que o desfecho romântico e todo o primor técnico dessa obra, mas só foi fazer sentido muitos anos depois, quando de posse da minha identidade de homem negro, se encaixou perfeitamente na forma como a sociedade brasileira se comporta.
Aqui todo mundo torce pelo beijo gay na novela (pelo menos torcia), todos se dizem encantados com a beleza negra, todos ficam derretidos com a história de superação de um garoto favelado que supera os obstáculos da vida e “vence”. Todos gostam de tudo isso, desde que cada um fique no seu devido lugar.
A escadaria da Paróquia Nossa Senhora da Paz, local de chegada de muitos imigrantes em São Paulo

A escadaria da Paróquia Nossa Senhora da Paz, local de chegada de muitos imigrantes em São Paulo

O atentado do último sábado (08/08/2015) contra seis haitianos, que inclusive resultou na morte de um deles, foi uma amostra disso tudo. Animais assassinos alimentados por uma cultura racista atacaram seis pessoas alegando que estes estavam roubando seus empregos. Não lembro de nenhum ataque aos espanhóis e portugueses que chegaram aqui assim que a crise na zona do euro se agravou, e foram muitos. Sem contar que os haitianos, mesmo que muitos dominem mais de dois idiomas e possuam formação universitária, acabam ficando com  os subempregos que os brasileiros não querem. Em hipótese alguma essa atitude selvagem – contra negros ou brancos – seria aceitável, mas é incrível como no caso do negro a repercussão é muito menor. Fosse um europeu a coisa seria diferente.
Gostamos de estrangeiros, desde que sejam brancos e de algum país tido como desenvolvido. E o engraçado que esse comportamento vem de um povo que durante muito tempo foi, se ainda não é, hostilizado e menosprezado quando está no exterior.
Todo mundo é contra o racismo, desde que o negro fique calado e concorde com tudo. Todo mundo é pro inclusão social, desde que os aeroportos não fiquem cheios “dessa gente humilde”. Todos concordam que no Brasil vigora uma democracia racial (espera um pouco, perdi o fôlego de tanto rir), desde que o negro fique no lugar de negro e o branco no lugar de branco. Acontece que essa ideia não resiste à uma análise honesta, onde nossos preconceitos estão tão enraizados que não é difícil encontrar até mesmo um negro reproduzindo racismo por ai com frases ignóbeis do tipo: O racismo está nos olhos de quem vê.
O racismo, companheiros e companheiras, está na pele de quem sente. Está na lágrima de quem sente. Está nas estatísticas vergonhosas que nosso país ostenta sobre violência policial, curiosamente contra pessoas negras. O racismo está na novela, está na sua piada, na camiseta, na música, na sua “liberdade de expressão (não seria de opressão) na hora de fazer um programa humorístico criminoso como o Pânico na TV.  O racismo está em você, que se recusa a repensar seus privilégios e olhar com honestidade para o mundo ao seu redor.
Acontece que o povo negro esta acordando e não será mais composto por pessoas pretas “comportadas”, e isso irrita profundamente qualquer branco que vê seu racismo histórico escancarado e sem defesa bem na sua frente, diante dos seus filhos e amigos. É ser pego de surpresa com as calças nas mãos fazendo algo errado, por que nunca passou por suas cabeças despreocupadas que um dia levantaríamos e com o peito estufado gritaríamos: Não! Não aceitamos mais.
É bom que se acostumem, porque a fatura chegou e não queremos o pagamento mínimo.

black-people-unity-the-shop-blog

Anúncios

6 comentários

  1. Afonso Souza · agosto 11, 2015

    Ótimo texto. Obrigado!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Sister Sanford (@sistersanford) · agosto 11, 2015

    Excelente texto! Pra quem insiste em rebater qualquer discurso anti-racista com o argumento imbecil de que o fato do racismo também existir entre os negros seria suficiente pra igualar o peso de duas merdas na balança e devolver a culpa do racismo àquele que o sofre, deixa eu te contar uma historinha. Cheguei à Porto Alegre há alguns anos, vindo de outro estado. A procura de lugar pra morar, soube de uma moça oferecendo vaga em seu apartamento. Bato na porta da garota numa tarde ensolarada. Ela me olha dos pés à cabeça e faz cara de quem não gostou do que viu. Eu subo para o apartamento dela e começo a responder algumas perguntas. Ela: “De onde você é?”. Eu: “São Paulo”. Ela: “O que você veio fazer aqui?” Eu: “pós-graduação”. Ela: “hmmm… E você gosta da Joelma? Pois vocês lá de cima, do Paraná pra cima, só ouvem isso, né? Ivete Sangalo, Cláudia Leite e Calypso”. Eu: “Não! Não é o meu estilo musical preferido, mas te garanto que não é o único estilo ouvido pela população daquela região “pra cima”. Ela: “E aquele índice de violência de lá? Aqui no Rio Grande do Sul nós ouvimos sempre as notícias de como aquela parte do país é perigosa. Você vai gostar daqui. É muito mais tranquilo. Nós temos mais segurança, mais cultura, mais desenvolvimento. Sim, pois somos mais desenvolvidos”. E mais redundantes, penso eu. Hehehe! Eu: “Que ótimo! Vou gostar mesmo!”. Ela: “Você tem dinheiro pra morar aqui, né? Como você pretende pagar o aluguel e as contas do apartamento? Não quero saber dessa gente que vem não sei da onde e depois não tem como pagar”. Eu explico que possuo recursos suficientes. Em seguida, ela me mostra o apartamento e depois testa o meu inglês, pra ter certeza que sou aluna de pós-graduação. Eu explico que já morei fora do país estudando e ela se surpreende. Em seguida, diz “Mas como você conseguiu viver lá com essa cor de pele?”. Minha sensação de náusea diante da pessoa aumenta muito e eu digo que adorei o apartamento, o lugar, e que gostei “muito” dela. Completo com a frase: “Tenho certeza que não preciso procurar mais”. Digo isso pra não demonstrar a amargura que eu sentia em estar diante da presença dela. Depois disso, me apresso para ir embora. Ela me acompanha até a porta e decide caminhar comigo até o próximo quarteirão para me mostrar um atalho para minha próxima parada: o campus da universidade. Na rua, ela decide falar um pouco mais sobre como Porto Alegre é uma cidade desenvolvida e se oferece para me ensinar a atravessar a rua. Ela me mostra como fazer os gestos corretos para solicitar que um motorista pare no cruzamento quando precisar atravessar a rua. É que ela achava que eu tinha vindo de um lugar tão inferior, que atravessar a rua em uma capital deveria ser um problema pra mim. Depois de passarmos pela rua no qual um motorista tinha atropelado vários ciclistas há poucas semanas, paramos de caminhar e ela me diz que vai pensar sobre a vaga disponível. Diz que precisa de tempo pra por a cabeça no lugar e ver se realmente eu devo ficar com a vaga. Eu digo pra ela que é o “melhor lugar que eu havia encontrado” e aguardaria ansiosamente pela resposta. No dia seguinte, pela manhã, ligo pra ela digo que ela não precisaria perder tempo pensando pois eu não estava interessada. Ela era negra, assim como eu. Porém, cresceu cultivando toda aquela ideia fascista que prega a superioridade de um povo em relação a outro com base na origem. Na apartamento dela havia fotografias dela com a família vestindo pilcha em cenários característicos da tradição dos gaúchos da fronteira. Era provavelmente daí que ela tomava impulso pra olhar pra mim e pra cor da minha pele e enxergar alguém necessariamente inferior a ela. Deste modo, ela simplesmente adotava a perspectiva do mito da origem européia, comum naquela região. Eu digo “mito” não para sugerir que seja falso, mas para indicar que trata-se de uma alegoria constantemente referida pra sustentar uma história de origem, uma história “vencedora”. E nós sabemos que a história vencedora não é a do descendente de africanos. Nós sabemos que o racismo se espalha como um vírus e contamina os mais vulneráveis. Os vencidos já estão mutilados. Estão tentando se agarrar em alguma coisa. E aquela moça que me olhou torto encontrou um porto seguro numa identidade que pra ela é algo precioso e confortável. Suas escolhas não tem nada a ver com a cor de pele dela. Na verdade, têm muito mais a ver com a falta de escolhas.
    Nunca deixe ninguém te calar apontando o dedo na sua cara pra dizer que o racismo que você sofre é algo menor por estar generalizado a este ponto. É um paradoxo esquisito esse de colocar a raça como critério pra analisar o racismo.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Leop Duarte · agosto 12, 2015

    Arrasou no texto! Parabéns! Recentemente cheguei a conclusão de que “Radical é o novo Insolente”. Impressiona a constância em que pessoas brancas reagem mal quando argumento sobre racismo. Como elas imediatamente me acusam de estar com raiva. Não que o racismo não me dê motivos para isso, mas nem sempre eu tô com raiva. Imagino que com você seja o mesmo. Discutir que é bom, nenhum deles consegue. Imagino que porque, no fundo, eles saibam muito bem o tipo de ideologia que possibilita esses discursos. Só não estão acostumados a terem pessoas contestando. Principalmente negras. Puxado! Abraço!

    Curtido por 1 pessoa

    • Rodrigo Teles Medrado · agosto 12, 2015

      Exatamente isso. Viramos o “negro bravo” quando começamos o debate. O importante é manter o ânimo, pois esse é apenas o começo. Muito obrigado pela atenção e pelo seu comentário.

      Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s